Cafeína e antigas heroínas

Fui no Starbucks e lembrei de você
Um frapuccino que você sempre pedia

Éramos amigos eternos
Vidas perdidas em uma via expressa
Viviamos em um abraço fraterno

Vi seu insta outro dia
Estava diferente
O sorriso ainda é o mesmo
Mas já não nos reconheceriamos hoje
Por que já não somos só riso

O frapuccino chegou, apenas meu nome escrito
Esperei por você por engano
Um dia nos veremos num acaso inscrito

Você talvez sorria
Eu talvez reconheça
Ou ache que seja só uma cópia sombria

Dias, mentes, duplamentes, desmente

Risco teu nome do meu caderno
Diamantes riscam minha pele
Arrisco uma lágrima singela
Uma pedrinha que cai do céu na minha bochecha

Raios que te partam
Que tu parta pra bem longe
Que parto foi te rever

Que nos encontremos somente no fim
Quando já não ouvir esse tintim
De taças de vinho me levando a ti

Que você perceba
Que nada se compara
A minha vontade louca
De entender essa vontade rouca

Paulo Leminski e Fernando Pessoa

Não discuto com o destino

O que pintar eu assino


Ricardo Reis

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.