Entre lobo e cão
Há um gato
Soturno, ligeiro e vaidoso
Que percebendo a transitoriedade do mundo
Aceita de bom grado passar essa noite
Ao teu lado
Mesmo que tudo passe, acabe, morra
Há de viver em minha memória o bem que tentei lhe fazer, e o mal que acometi sem querer
Sim são notícias de amor
Mas qual notícia não foi motivada por um coração?
O amor que preenche não é uno
É o amor de uma mãe que cozinha um pedaço de carne para três
É o amor de um amigo que chora em teu ombro na penumbra da noite
É o amor de uma mulher que se entrega despida, de roupas, de falsos sorrisos
O meu amor não é facilmente perceptível
escondo-o nessas linhas tortas
Todo mundo honra os tutores
E os tutores honram seus tutores
Se assim formos, eu honro a ti, ao Paulo e minha mãe
E vocês honram qualquer Camões ou Rimbound
E eles honram qualquer bardo medieval que cantou uma mulher com palavras arcaicas
A questão é que a única forma de honrar um poeta
É nunca desistir da poesia
O bucolismo é a maior mentira dos contemporâneos
Fotos de belas praias ou frias chácaras
no apogeu técnico-cientifico-informacional chamado celular
Milton Santos ficaria surpreso com o mundo quase cyberpunk que ainda escreve lindos mundos de fantasia da Europa medieval
Sejamos honestos, é belo pensar numa fogueira
Mas o aquecedor elétrico é mais confortável
No meu peito carrego os que já foram
As vezes por doença
Outras por acasos
Mas o pior tipo foi os que foram acometidos de tempo
Esse sim é cruel, pois leva para mais longe que Plutão
E mesmo assim permite que se visualize,
dê esperanças de um reencontro
De duas almas desalinhadas
que nunca mais se tocarão
A poesia é tudo que há
Para compreender
Vocês
O universo
Eu
Não posso desistir disso
Como não posso desistir de amar
Mesmo que inevitavelmente eu esbarre em conhecimentos que me assustem
Mesmo que eu não possa aproveitar a experiência
Ainda posso aproveitar a poesia
Que venha então, leve-me tempo, pois deixo o que precisei deixar, e mesmo que esse suma, ainda viveu aqui, agora
Pouco me importa o tempo futuro
Futuro não há, pra quem tenta aproveitar o presente
e mesmo que este falhe, ainda revive o passado
Maculado pelas hipérboles próprias a lembrança
que aumentam ainda mais o amor que senti numa noite qualquer em que tua voz foi o que me restou de esperança
Esse texto pode fugir ao clássico
Pode não ter rimas ricas ou grandes hiperbatos
Mas pouco importa de fato
pois tens razão nada restará do que escrevo
Mas o mundo é um ilusão
E quando eu finalmente acabar
Vocês todos acabarão comigo
Pois em mim só vive vocês todos
E eu só posso viver em vocês